Por Susie La Lune
João Gilberto caminha até o palco onde acontecerá um dos seus raros shows. Seus passos lentos soam como a doce melodia das canções que ele ajudou a criar. No palco senta-se em um banquinho e pega o seu violão. Não é preciso mais que isso.
João Gilberto pede silêncio, afinal com barulho não se pode ouvir o som das ondas que se erguem no mar, nem de um barquinho que desliza na letra da canção. Seu violão não está desafinado. Seus ouvidos não devem ser nenhum pouco antimusical. Se ele desafina é porque na Bossa tudo isso é muito natural.
O público não consegue disfarçar a emoção. Como fantoches, mexem a boca tentando que os sons sussurrados não cheguem aos ouvidos do mestre.
É quando percebo um casal que não consegue ouvir tudo aquilo e se manter indiferente diante da paixão que aquela música evoca. Parece que uma força os envolve e já não os deixa em paz. Nada mais fácil de entender, quando o próprio João Gilberto sentencia: “O nosso amor vai ser assim, eu pra você, você pra mim”.
As mãos do músico dançam pelo violão, seus longos dedos brincam de trocar de cordas e, a cada novo tom, algo de transcedental se dilui no ar. Há quem ache que ele é esquisito com aquele jeitão todo calado. Bobagem! Já dizia o próprio que vaia de bêbado não conta. Neste caso, nem crítica de quem não consegue viver sonhando, sonhando mil horas sem fim.
Nada se pode exigir dele. Mas se ele puder fazer só mais um favor, eu pediria sem pestanejar: João nunca pense em nos deixar, se é por falta de adeus, saiba que este adeus não vou te dar.
1 Resposta para “Se você disser que eu desafino…”